Publicação do E-Book com o tema Políticas Públicas para Pessoa Idosa e a Formação dos Conselhos de Direitos.

O material faz parte da Coletânea “Trilhas da Longevidade”, com três volumes com os seguintes temas: Cultura de Cuidados, Velho é o Outro e Conversas com a Família. Elaboramos o material para Formação de Cuidadores de Idosos, Profissionais da Gerontologia e a População Idosa. Contato: www.inteligenciaedu.com.br

Prevenção de quedas: desafios para profissionais e para pessoas idosas

Exercícios e autopercepção das limitações são mecanismos que contribuem
para a prevenção de quedas.

Na segunda live comemorativa dos 10 anos da Longevida Consultoria, realizada em 21 de junho, o tema foi Prevenção de quedas: desafios para profissionais e para pessoas idosas. Fundadora e diretora da empresa e com 34 anos de atuação na área do envelhecimento, Sandra Regina Gomes lembrou, na apresentação do evento, que a Longevida tem como missão valorizar a pessoa idosa e promover a sua participação cidadã na sociedade, por intermédio de uma equipe multiprofissional. “E, ao longo destes 10 anos, tivemos uma atuação muito expressiva, principalmente no tema que trataremos hoje, prevenção de quedas”, ressaltou, acrescentando que os tombos também são episódios de violência, em razão das consequências que provocam. “É um tema de saúde pública.” 

Sandra voltou a manifestar, como havia feito na primeira live comemorativa dos 10 anos da Longevida, dia 14, repúdio à proposta de considerar a velhice uma doença. “A despeito das comemorações dos 10 anos da Longevida, gostaria de expressar que a Longevida tem uma posição de estranhamento em relação à Organização Mundial de Saúde, quando ela coloca que o CID, que é Classificação Internacional de Doenças, CID 11, classificará a velhice como doença a partir de 2022”, disse. 

Segundo Sandra, a velhice é uma etapa da nossa existência e jamais poderá ser considerada uma doença. “A doença não é uma prerrogativa do envelhecimento. Os jovens adoecem, os adultos adoecem… então, por que essa conotação de que velhice é doença? O nosso único destino, se não morrermos antes, é envelhecer. E vamos envelhecer cuidando sim da nossa qualidade de vida, de nossos relacionamentos, evitando quedas. Os aspectos preventivos garantem um envelhecimento digno, saudável, participativo.” E acrescentou: “Estamos indignados e nos juntamos a um grupo de pessoas que estão dizendo que velhice não é doença”. 


A fundadora da Longevida ainda destacou o compromisso de sempre promover, nas lives, debates acerca de temas que contribuam para o envelhecimento saudável, como a prevenção de quedas. Convidada para a live, Monica Perracini, fisioterapeuta, especialista em gerontologia, professora do programa de mestrado e doutorado de Fisioterapia da Universidade da Cidade de São Paulo e consultora da Organização Mundial de Saúde (OMS), também manifestou indignação a respeito de considerar velhice uma doença. Para ela, trata-se de um erro conceituar a velhice a partir apenas de um aspecto: a saúde. “Mas existem tantos outros aspectos importantes que nos moldam como seres humanos. Então, realmente é um absurdo, um grande retrocesso”, afirmou.

“A OMS tem compartimentos, cada uma das áreas é meio compartimentalizada. A equipe que trabalha no CID não é a mesma que trabalha nos projetos de envelhecimento saudável, mas eu espero que a integração entre as áreas ocorra e consigamos não deixar que isso (considerar a velhice uma doença) não aconteça”, disse. 

Problema de todos. Com relação às quedas, Monica ressaltou que todos estamos sujeitos a elas, embora existam populações com maior risco, como crianças, trabalhadores da construção e idosos. Embora ainda não existam dados a respeito, a professora acredita ser possível que os casos tenham aumentado durante a pandemia. Afinal, os idosos foram os mais aconselhados a se isolar. Ela citou pesquisa mostrando que quase 90% chegaram a ficar fechados em casa, um cenário que ainda não está superado. 

É uma situação que traz consequências ruins, como diminuir muito o nível de atividade física dos idosos. Sem sair de casa, ficaram mais tempo sentados e muitos tiveram perda de funcionalidade nesse período. “Sabemos que bastam poucas semanas de inatividade para que se perca massa muscular, força, que se deteriore o equilíbrio corporal. Possivelmente, ainda vamos ter mais respostas nos próximos meses, mas acredito que tivemos um declínio da funcionalidade das pessoas idosas nesse período”, afirmou.

Ao mesmo tempo, os cuidados com a saúde também diminuíram, pessoas não foram a consultas, interromperam tratamentos, muitos idosos deixaram de tomar remédios, não foram até o posto de saúde buscá-los. “Enfim, houve uma interrupção, e a própria OMS sinalizou, queda da ordem de mais de 70% dos tratamentos no período da pandemia”, disse a professora.

Proteção. No entanto, há como evitar quedas, principalmente se a pessoa se cerca de mecanismos protetores, fica menos sujeita a cair. Fala-se muito do corpo, da saúde, mas há outros mecanismos de proteção que podem ser desenvolvidos. Monica contou que campanhas antigas para conscientizar idosos dos perigos de uma queda mostrando resultados como as consequências ruins de uma fratura, não tiveram o efeito esperado.

“Descobrimos que esse não era o mecanismo adequado, porque o idoso realmente se motiva a fazer prevenção de quedas, quando percebe que tudo o que se faz para prevenir uma queda, também ajuda a ter um envelhecimento ativo e saudável”, contou Monica. 

A primeira coisa para se adotar uma postura de precaução é perceber o próprio risco. “Só consigo me proteger, se eu tenho uma boa percepção de como eu estou. O ideal é se perguntar ‘o que dou conta de fazer?” E responder sinceramente. “Quando alguém tem essa percepção adequada, consegue desencadear mecanismos de proteção.” De acordo com Monica, é importante a pessoa idosa, familiares e profissionais da saúde pensarem a respeito. 

Remédio. A professora destacou que está comprovado que o exercício físico é uma das ferramentas mais poderosas que existem para ajudar a prevenir quedas. Mas não é qualquer exercício. Precisa ser um exercício que explore o equilíbrio corporal, mesclado com atividades funcionais, que também fortaleçam um pouco as pernas. “Que não deem apenas  força, mas potência para essas pernas, subir e descer escada, subir e descer degrau, agachar e trabalhar também o equilíbrio de forma progressiva”, argumentou. Outra coisa: os exercícios precisam ser feitos três vezes por semana. E vale reforçar: o exercício não vai se refletir apenas na prevenção de quedas, mas no envelhecimento ativo e saudável.


O motivo é que nosso corpo vai tendo alterações que, se não tentarmos reverter ou ao menos amenizar, vão se intensificando à medida que os anos vão passando. “Há redução bastante acentuada da capacidade corporal, depois dos 50 anos, para várias funções. E como se consegue reverter? Fazendo exercícios, muitas vezes se forçando a colocar seu tênis de pé, e tentando, com segurança, treinar seu equilíbrio também durante o cotidiano, não esperar o exercício três vezes por semana.”  

Jornalista, gerontologista e criadora do blog Nova Maturidade, Katia Brito lembrou que estudos apontam haver dificuldades que o profissional de saúde enfrenta na hora de implementar ações sobre prevenção de queda. Para Monica, os profissionais da saúde precisam se motivar um pouco mais para poder dar a devida importância à prevenção de quedas.

“Uma pergunta muito simples como ‘você caiu no último ano’ é um marcador de uma queda futura”, disse a professora, ressalvando que talvez os profissionais de saúde não tenham as melhores condições para fazer essa implementação, talvez não estejam atualizados. “Se o profissional pergunta se houve queda, a próxima pergunta é sobre exercício, mas para onde encaminhar? Onde existem programas de prevenção de queda perto da casa do idoso? Onde há profissionais para implantar um programa de prevenção de quedas”, disse. 

precisa tomar várias conduções, se não se sente acolhido naquele local, ele desiste. 

Percepção. Sandra chamou a atenção para o fato de que a autopercepção do idoso a respeito de suas capacidades é um processo. “Não é uma ação apenas, mas um conjunto. Quando você fala da autopercepção, eu estou em uma calçada, que já é um risco, ou percebo que estou um pouco zonzo, ou tomei um remédio e não me senti bem, então não vou sair correndo atrás de um ônibus. Isso tudo é autopercepção, que muitas vezes vai sendo negligenciada”, disse. 

Katia perguntou à professora se é verdade que todo idoso cai. Monica negou e disse que boa parte das pessoas passa a velhice inteira sem experimentar um tombo. “Claro, as pessoas idosas estão mais propensas a cair, principalmente aquelas que têm múltiplas comorbidades, alterações sensoriais importantes, da visão, do sistema vestibular, mas não é uma realidade para todo mundo.”

No entanto, uma queda que resulta em necessidade de atendimento médico indica maior vulnerabilidade, e pessoas nessa situação indicam possivelmente caidores recorrentes. Pessoas com Parkinson e outras doenças têm mais tendência a cair. “O declínio cognitivo, hoje se sabe, é um marcador de quedas futuras.” Nessa situação estão pessoas que não apresentam problemas físicos, mas têm falta de atenção, por exemplo, não conseguem gerenciar muitas atividades simultaneamente e, eventualmente, isso pode contribuir para uma queda. 

“A queda é um marcador de que a pessoa precisa investigar, pode ser um declínio cognitivo que está em curso. Por isso que se diz que, uma queda não pode ser negligenciada, porque pode ser a pontinha de um iceberg, pode haver tanta coisa submersa, que precisa ser melhor investigada.” 

Xênia Rocha, que assistia à live, quis saber se o espaço físico inadequado é fator relevante para quedas. Segundo Monica, deixar o ambiente mais protegido, livre de obstáculos, com melhor iluminação e que seja mais amigável para aquilo que o idoso faz no dia a dia é importante. “Fazer pequenos reparos, tirar obstáculos, às vezes é um degrau mínimo de um ambiente para outro, ou colocar uma barra… tudo isso é capaz de amenizar as quedas neste grupo.” 

A questão do espaço físico urbano, em especial as calçadas, também entrou em pauta. “Isso não foi resolvido, não sei quando a questão da caminhabilidade em nossas calçadas vai ser resolvida por algum governo no Brasil”, disse Monica. “Nossos espaços públicos não estão preparados e nossas calçadas também não. A falta de proteção é grande.”

Sandra chamou a atenção para o fato de que a falta de acessibilidade adequada acaba não garantindo a independência de pessoas idosas ou com deficiência. “Tudo isso é um desafio para o gestor. Eu também já estive muito próxima desse desafio”, contou, ao questionar o motivo de políticas de acessibilidade não terem sido amplamente implementadas, “Uma das possibilidades é que em todas as conferências do idoso, seja em qual instância for, a temática recorrente do ir e vir, de acessibilidade, de prevenção de quedas, esteja sempre presente. E por que é tão difícil (a implantação da acessibilidade)?”, acrescentou Sandra.

Agenda. A professora Monica reforçou que a acessibilidade é qualidade de vida. “Quando se caminha na rua com tranquilidade, se está dando oportunidade às pessoas de encontrar significados para a vida dela dentro de um espaço urbano, encontrar outras pessoas e não depender de outras pessoas para acessar serviços básicos, aonde ir, o que comprar. A mobilidade é realmente importante.” 

Para Sandra, essa questão precisa estar na agenda.  “Não há como evitar. O País está envelhecendo, há pessoas com deficiência que também estão envelhecendo e uma cidade acessível, um espaço acessível, é bom para todo mundo. Isso precisa ir para a pauta”, disse. E reforçou que as quedas são um tipo de violência, assim como os acidentes de carro e os atropelamentos.

”Muitas pessoas não saem de casa porque o ambiente da rua não é acolhedor, ou não saem o quanto gostariam de sair, porque justamente sentem essa violência, como a Sandra fala. Deveríamos ter um pouco de compaixão com essas pessoas, porque são adversidades uma atrás da outra”, afirmou Monica. 

Para a fundadora da Longevida, é preciso multiplicar o alcance dessa temática. “Esta é a prioridade: vamos dar luz à questão da garantia de ir e vir para todas as pessoas. Isso é possível, vamos conseguir. Temos uma Constituição federal que fala sobre isso, temos o Estatuto do Idoso, que zela pelo envelhecimento, pela proteção à pessoa idosa. Isso conversa com direitos humanos”, reforçou Sandra.

“Quero fechar dizendo que qualquer oportunidade é uma oportunidade para conversarmos a respeito de prevenção de quedas, e que qualquer ação, intervenção é importante, no sentido de minimizar o risco e proteger a pessoa o máximo possível. Então, mesmo aquele profissional, que talvez não tenha todas as condições, mesmo nessa situação de tanta dificuldade, ele consegue. Acho que isso tem um poder imenso”, declarou a professora Monica Perracini. 

Claudio Roberto Marques – Jornalista

Violência contra a pessoa idosa foi tema da primeira de três lives para marcar os 10 anos da Longevida

A violência contra a pessoa idosa nem sempre é visível. Existem formas menos aparentes que a agressão física violenta. São agressões emocionais e psicológicas, econômicas e as fraudes – e normalmente envolvem cuidadores ou familiares. Quem nunca ouviu falar do familiar que pede o cartão do aposentado para fazer uma compra, mas não paga a fatura? No fim, é o idoso quem fica com o prejuízo. Saindo do círculo mais próximo, há ainda o golpe do crédito consignado, que muitas vezes a pessoa nem sabe que tem o crédito ­– nem viu a cor do dinheiro –, só toma conhecimento quando fica inadimplente e com o “nome sujo” na praça.

Em sintonia com o Dia Mundial de Conscientização da Violência contra a Pessoa Idosa, o assunto foi o tema da live Combate à Violência contra a Pessoa Idosa: fraudes, relações intrafamiliares e delegacias, realizada em 14 de junho, pela Longevida Consultoria. Foi a primeira de três lives programadas para junho a fim de celebrar os 10 anos de atividades da empresa.  As outras duas apresentações foram: Prevenção de quedas – desafios para profissionais e para pessoas idosas, transmitida em 21 de junho, e Cuidado e Cuidadores – Estudo situacional sobre idosos dependentes e seus cuidadores familiares, no dia 28 de junho.

“Ao longo destes 10 anos, tive o prazer de implantar políticas públicas para a pessoa idosa, estar próxima também de gestores da iniciativa privada, mas principalmente favorecer espaços de escuta e dar espaços de voz para a pessoa idosa”, afirmou Sandra Regina Gomes, fundadorae diretora da Longevida, na apresentação do evento. “É o que nós precisamos em nosso País”, ressaltou, ao mencionar o aumento expressivo do número de pessoas com 60 anos ou mais no Brasil.

Compromisso e retrocesso. Sandra, que tem 34 anos de atuação na área, lembrou que o Dia Mundial de Conscientização da Violência contra a Pessoa Idosa, em 15 de junho, foi implantado em 2006 pela ONU e pela Rede Internacional de Prevenção à Violência contra a Pessoa Idosa. E citou o Artigo 4º do Estatuto do Idoso, Lei Federal 10.741: “Nenhum idoso será objeto de qualquer tipo de negligência, crueldade ou opressão, e todo atentado contra seus direitos, por ação ou omissão, será punido”. E acrescentou: “Todos nós que trabalhamos com a causa do envelhecimento, com a pessoa idosa e seus familiares, temos esse compromisso”.

Em seguida, manifestou indignação com “o retrocesso” estabelecido pela Classificação Internacional de Doenças (CID) 11, que considerar a velhice uma doença. “Temos de nos unir para falar sobre isso, velhice não é doença”, afirmou. Lembrou que a velhice é um processo natural, como infância ou adolescência. “Temos de respeitar a velhice, pois como diz o professor Alexandre Kalache, a alternativa é morrer antes.” A fundadora da Longevida sugeriu, então que em todas as postagens feitas pelos espectadores fosse usada a hashtag #velhicenãoédoença, assim mesmo, com acento e cedilha, como parte de uma campanha em nível mundial contra a CID 11.

O evento. Intermediado por Sandra, o evento teve as participações de Vera Caovilla, com larga experiência na área da gerontologia é cofundadora da Associação Brasileira de Alzheimer e da empresa 50 + Ativa; Cristiane Machado Pires Ramos, titular da Delegacia de Proteção à Pessoa Idosa de Porto Alegre e vice-presidente do Conselho Estadual do Idoso do Rio Grande do Sul, e de David de Aquino Filho, do Projeto Dinheiro e Longevidade.

Segundo Vera, existem violências muito leves cometidas contra pessoa idosa, não necessariamente de maneira voluntária. São aquelas, por exemplo, em que cuidadores, familiares ou não, usam força para tocar o paciente que apresentam algum grau de demência ou comprometimento cognitivo, como no caso daqueles com doença de Alzheimer.

“Quando se tem um cuidador em casa, é preciso dar uma olhadinha na pessoa idosa, porque a roupa acaba escondendo sinais (de violência) que deveriam ser vistos”, disse. O paciente pode ter sido beliscado ou recebeu um tapa na cara. “A pele do idoso fica mais sensível, fica muito marcado”, alerta.

A violência psicológica ou emocional, por sua vez, ocorre quando o familiar ou cuidador não liga para a pessoa idosa, desconversa, não dá atenção, finge que a pessoa não está mais existindo, o que acaba levando o idoso a um processo de depressão e afastamento. “Com isso, ele se retrai cada vez mais.”

A negligência com o paciente com certa demência, como não dar medicação ou não prover higiene e alimentação, também configura agressão. “É uma violência sim, porque o paciente não tem condição de reagir”, reforça. Mas como reconhecer quando uma pessoa idosa com esse quadro sofre violência?

Reconhecimento. Alguns sinais devem acender a luz amarela. O idoso evita olhar de frente para esse cuidador ou familiar, muda de comportamento quando essa pessoa sai de perto, percebe-se que não existe empatia entre o doente e o cuidador. O paciente fica tristonho. Para a pessoa com Alzheimer é ainda mais difícil, de acordo com Vera, porque muitas vezes ela não consegue entender o que está acontecendo, mas sente que há algo errado e não consegue colocar isso para fora. “No entanto, ela vai comunicar, de uma forma ou de outra. Pode não falar, pode mostrar pelo gesto, pela forma. Se está sendo gentil, se está conversando, se ela se exclui do convívio familiar”, observa Vera. 

Quem convive com paciente com Alzheimer sabe que é comum ele dizer que “aquela pessoa está me roubando”, ou “tal pessoa está me maltratando”, sem que isso esteja realmente ocorrendo. Ao mesmo tempo, alguns dos portadores de Alzheimer perdem a capacidade de falar, então começam a chorar ou gritar. Vizinhos, então, pensão que est[á ocorrendo violência física. Mas o que se pode fazer se ouvirmos isso constantemente? Para Vera, é preciso prestar atenção: “Mesmo que seja um aspecto da doença, pode ser que haja algum ponto de verdade”.

Há também dificuldades que a família passa, quando tem uma pessoa com Alzheimer e precisa tomar iniciativas como controle bancário ou econômico-financeiro. Vera citou o caso do pai de uma amiga, que tinha boas posses. “Ainda no início da doença, chegou ao banco e conseguiu comprar dois carros ao mesmo tempo — o gerente se aproveitou da situação. Ele conseguiu assinar direitinho a documentação de financiamento, só que ele já estava com Alzheimer, mas a família ainda não tinha conseguido o processo de curatela. A família tentou e não conseguiu desfazer o financiamento”, contou. “É violência financeira.”

A delegada Cristiane disse que, muitas vezes, a polícia fica de mãos amarradas, em razão de contrato malfeitos. “Fica difícil comprovar que antes a pessoa já estava com problemas.” E lembrou dos casos em que os idosos sequer sabem que estão fazendo empréstimos, como nos casos de oferta e concessão de empréstimos por telefone. Ela, no entanto, defendeu a curatela, que muitas vezes sofre resistência por parte de familiares, e disse que a medida protege sim o patrimônio do paciente.

Omissão. Em relação à omissão, disse que é difícil apurar. “Mas, de fato, deixar de prover as necessidades básicas do idoso, implica em abandono, previsto no Estatuto do Idoso, com pena de 3 anos, assim como submeter idoso a situação desumana ou degradante configura crime de maus tratos. Muitas vezes cometidos por pessoas muito próxima do idoso.”

No entanto, a delegada destaca que a proteção ao idoso é dever de todos. “Da família, do Estado e da sociedade. Só que a sociedade somos nós. Temos de assumir essa responsabilidade, pelo tio distante, pelo vizinho que grita e pede socorro: será que ele está com algum problema de senilidade? E aí temos de denunciar”, disse,

As denúncias podem ser feitas, inclusive anonimamente, pelo Disque 100, da Ouvidoria de Direitos Humanos. “Chegada a denúncia, a polícia desloca equipe até a casa do idoso pra conferir o que está acontecendo”, contou. E chamou a atenção para a importância de a polícia saber acolher a pessoa idosa. “É preciso uma escuta muito mais atenta, porque o idoso para denunciar alguém que é da família dele, precisa romper com um ciclo de silêncio muito difícil, para denunciar o filho ou o irmão. E ele não quer porque se sente responsável pela família, tem medo de não ser levado a sério.”

Segundo a delegada, com a pandemia, as denúncias de maus tratos, via Disque Denúncia, aumentaram 80% e chegaram a uma alta de 100% no final do ano passado. Ela no entanto, defendeu a curatela, muitas vezes rejeitada por familiares, como forma de defender o patrimônio do paciente. E lembrou que em casos urgentes de denúncia de agressão, o ideal é acionar o 190, da Polícia, pois a apuração da denúncia feita pelo Disque 100 não é tão rápida.

Dinheiro. Criador do projeto Dinheiro e Longevidade, para ajudar pessoas idosas a lidar com o dinheiro, o ex-bancário David Aquino Filho David Aquino Filho citou que 43% das pessoas com mais de 60 anos são provedores de suas famílias e que há no Brasil 75 milhões de inadimplentes, muitos idosos. “A violência (financeira ou bancária contra o idoso) vai bater na inadimplência, vai bater na própria família desse idoso que é provedor. E a Febraban informou que, no final do ano passado, houve aumento, até aquele momento, de 60% / 70% das fraudes bancárias. Deve ter aumentado mais ainda de lá para cá.”

David lembrou que sempre houve fraudes, como no autoatendimento na agência bancária ou no caso do consignado. Mas hoje a digitalização pode ser um problema ainda maior para a pessoa idosa, já que os banco agora também dificultam o atendimento presencial. “Atualmente, não é só banco, há fintechs, há vários agentes atuando, e a pessoa idosa confia muito nesse ambiente virtual, acha que realmente está conversando com uma pessoa”, disse, referindo-se a empresas que oferecem de empréstimos a “conselhos” a respeito de como aplicar dinheiro pelo meio digital ou telefônico.

Engenheiro social.  “Lembramos do golpista, do ladrão de carteira, que ficava olhando o descuido das pessoal. Mas agora é um engenheiro social, que estuda tecnologia, técnicas de como acessar informação das pessoas, e mais do que isso, estuda psicologia das pessoas, psicologia econômica, neurociência, como funciona o cérebro das pessoas.”

Todo o estudo do engenheiro social é no sentido de ter acesso às informações das pessoas, manipulando-as. Ele é agradável, disse David, consegue persuadir essa pessoa, envolve a pessoa. “É uma questão de tecnologia? É. Conseguem seu e-mail, no e-mail há um link malicioso com uma grande vantagem, mas ele vai em cima do comportamento das pessoas, como o idoso, porque tem aquela relação de confiança à antiga, ou estão vulneráveis, não conseguem discernir muitas coisas e facilmente libera suas informações.”

Por isso, argumentou a importância de a pessoa idosa ter precaução e prevenção. “Tem de aprender a acessar tecnologia, e entender essas coisas, o que não é muito fácil. Às vezes, entusiasmado no isolamento, sozinho, o idoso se expõe naturalmente na própria rede social, vai falando dele. E existe gente que vai juntando essas coisas. O engenheiro social trabalha com a curiosidade da pessoa, ele coloca um assunto atraente, e a pessoa cai.

David lembrou a grande facilidade ao crédito consignado. “Houve até aumento da base do consignado pra 40%”, ressaltou. E defendeu a necessidade de cartilhas e campanhas de orientação, além da importância da educação financeira do idoso. “O próprio idoso poderia ter educação social, educação financeira, para que nesse momento ele possa minimamente se defender”, reforçou.

Claudio Roberto Marques – Jornalista

Estudo sobre cuidado e cuidadores encerra programação de lives

A professora Cecília Minayo defendeu a criação de uma política clara que proteja a pessoa idosa e os cuidadores

A programação de lives em comemoração aos dez anos da Longevida Consultoria terminou com a participação especial da professora Maria Cecília Minayo, no dia 28 de julho. A socióloga, mestre em Antropologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e doutora em Saúde Pública pela Fundação Oswaldo Cruz, apresentou o estudo situacional sobre idosos dependentes e cuidadores familiares.

Acompanhada da assistente social, professora e pesquisadora Daniela Reis, e de Sandra Gomes, fundadora e diretora da Longevida, a professora Minayo compartilhou suas reflexões sobre pessoas idosas que demandam algum tipo de ajuda, um desafio não apenas para as famílias, mas também para a sociedade e o Estado.

Diante de uma população que envelhece em ritmo acelerado, a pesquisadora destacou que 83,4% dos idosos moram com suas famílias, 14,9% vivem sozinhos e menos de 1% reside em instituições de longa permanência para idosos (ILPIs), que mesmo com boa vontade às vezes não conseguem oferecer melhores condições aos residentes.

O estudo apresentado pela professora encontrou a prevalência 30,1% idosos com pelo menos uma limitação para as atividades da vida diária (AVD), chegando a 43% entre os analfabetos, 29% entre os que tinham instrução primária e 13,8% entre pessoas com formação superior. E como os analfabetos são os mais pobres, Minayo destacou o percentual grande de pessoas mais pobres, mais vulneráveis da sociedade brasileira que perderam sua capacidade de autonomia.  

As incapacidades funcionais, segundo a pesquisadora, estão associadas a doenças crônicas físicas, cognitivas, mentais, emocionais e motoras, que faz com que essas pessoas sejam reconhecidas pela Organização Mundial de Saúde como vulneráveis ou dependentes, precisando de ajuda para a realização de atividades pessoais diárias ou para tarefas cotidianas. As mais elevadas taxas de prevalência de dependência se concentram no grupo de pessoas com 80 anos ou mais.

O estudo com idosos dependentes foi uma pesquisa qualitativa em oito estados brasileiros, que constatou que 92,2% idosos têm alguma doença incapacitante, a maioria das pessoas tem duas patologias (50,3%) e todos faziam tratamento medicamentoso. A maior prevalência foi de doenças cardiocirculatórias (88,1%).

De acordo com a pesquisadora, o estudo tem como finalidade colocar foco em um grupo dos idosos que precisam de mais cuidados do ponto de vista do custo médico, mas também tem sobre muita coisa que poderia ser feita para geração de empregos, implantação de centros dias e programas de atendimento em casa.

Cuidadores

Sobre o perfil dos cuidadores, Minayo destacou que a maioria são mulheres (84,5%) na faixa de 40 a 80 anos (66,7%), em geral filhas, irmãs, sobrinhas, netas e cônjuges. Embora em menor quantidade, também há homens cuidadores, como filhos que cuidam das mães. Segundo a pesquisadora, há pessoas cuidando de idosos de um a dez anos, sem férias ou descanso, empobrecidos, em alguns casos com a ajuda econômica de outros familiares.

No Brasil, a professora afirmou que o cuidado com a pessoa idosa dependente é responsabilidade da família, um modelo naturalizado que pesa sobre o bolso e a qualidade de vida. Enquanto em modelos internacionais há políticas específicas para pessoas idosas com incapacidade. Minayo defendeu a urgência de políticas públicas claras que protejam a pessoa idosa e os cuidadores.

Katia Brito – Jornalista

Conselho do Idoso de Santos debate idadismo

Evento contou com a participação de Sandra Gomes, da Longevida Consultoria, e de Egídio Dórea

A capacitação e formação de conselheiros de Direitos da Pessoa Idosa é um dos focos do trabalho da Longevida Consultoria. No dia 13 de julho, representando a empresa, Sandra Gomes participou do bate-papo “Você sabe o que é idadismo?”, promovido pelo Conselho Municipal do Idoso (CMI) de Santos, no litoral de São Paulo, em parceria com o Observatório da Longevidade Humana e Envelhecimento (OLHE). Outro convidado foi Egídio Dórea, coordenador do programa USP 60+ e autor do livro “Idadismo – Um mal pouco percebido” (Editora Unisinos).

O bate-papo sobre idadismo foi conduzido por Marília Berzins, presidente do OLHE, convidada pelo presidente do CMI, Paulo Henrique Montenegro Lopes Ferreira. O termo idadismo, segundo Egídio, foi definido pela primeira vez por Robert Butler e pode ser descrita como a estereotipização sistemática e discriminação das pessoas por serem velhas. Um preconceito já estruturado na sociedade baseado nas crenças de dependência, isolamento, improdutividade, desvalorização social, declínio e morte.

Egídio afirmou que o idadismo é internalizado na forma como encaramos o processo de envelhecer, como olhamos o outro e não nos vemos velhos, entre outros aspectos. De modo institucional, mesmo nas empresas mais diversas do Brasil, a questão etária é pouco vislumbrada, assim como no sistema de saúde, o que resulta em menos exames preventivos, menos consultas de rotina, atraso na prescrição de tratamentos e na solicitação de exames.

Entre as consequências negativas do idadismo, Egídio destacou o aumento das taxas de ansiedade e depressão, perda da independência funcional, aumento do risco de demências, infarto e derrame, diminuição da expectativa de vida, que pode ser até 7,5 anos menor do que quem tem percepção mais positiva do envelhecimento.

O coordenador da USP 60+ também está á frente da campanha #soumaissessenta de valorização das pessoas com 60 anos ou mais. Sandra Gomes participou da criação da campanha quando esteve á frente da Coordenação de Políticas para a Pessoa Idosa, da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo.

Papel dos conselheiros

Sandra destacou em sua fala que a questão do preconceito em relação à idade é cada vez mais evidente. Um preconceito que às vezes não está declarado, mas está na atitude, na negligencia, na falta de percepção. Em Santos, segundo ela, os conselheiros representam 23% da população e precisam tomar ciência desse papel.

A diretora da Longevida ressaltou também a violência decorrente do preconceito em relação à pessoa idosa, que precisa cada vez mais ocupar seu lugar de direito afiançado pela Constituição, pela Política Nacional do Idoso e pelo Estatuto do Idoso. A responsabilidade dos conselheiros é enorme, de acordo com Sandra, por isso é fundamental a participação em capacitações, encontros e convites à reflexão sobre o exercício dessa cidadania ativa. E a mudança começa pela chave interna, se perguntando: “Que velho sou eu, como estou envelhecendo, como estou lidando com a sociedade ser tão preconceituosa em relação a mim?”.

Outro ponto abordado pela fundadora da Longevida foi que o conselho também perceba que seu papel é a representatividade das diferentes velhices, com assento, por exemplo, para a população idosa em situação de rua, LGBTI+, imigrante e das regiões periféricas, assim participar de outros conselhos municipais. Sandra recomendou o intercâmbio entre o Conselho do Idoso de Santos com municípios da mesma região administrativa – São Vicente, Praia Grande, Guarujá e Cubatão. Para Sandra, os conselhos e conselheiros podem capacitar os atendimentos em locais, como shoppings e agências bancárias, recolocando a população idosa em um lugar de dignidade e respeito e não de coitadinho ou vítima. “Estamos falando de um lugar de direitos humanos, de equidade, considerando as diferenças”, completou.

Katia Brito – Jornalista

Longevida Consultoria celebra 10 anos com programação de lives

Eventos no mês de junho vão abordar o combate à violência contra a pessoa idosa, prevenção de quedas e cuidado e cuidadores

Para celebrar seus dez anos, comemorados no dia 8 de junho, a Longevida Consultoria, empresa que atua na área do envelhecimento humano, preparou uma programação de lives comemorativas. Serão três encontros com temas inspirados no Dia Mundial da Conscientização da Violência contra a Pessoa Idosa, no dia 15 de junho, e Dia Mundial de Prevenção de Quedas, no dia 24 de junho, além do cuidado e cuidadores. A transmissão será pela página do Facebook @longevidaconsultoria e terá intérpretes de Libras.

A primeira live “Combate à violência contra a pessoa idosa: fraudes, relações intrafamiliares e delegacias”, será no dia 14 de junho (segunda-feira), às 18 horas. Os convidados são Cristiane Machado Pires Ramos, delegada titular da Delegacia de Proteção à Pessoa Idosa de Porto Alegre (RS) e vice-presidente do Conselho Estadual da Pessoa Idosa do Rio Grande do Sul, e David de Aquino Filho, do projeto Dinheiro e Longevidade, embaixador do Movimento Lab60+, educador e estudioso de novas economias, cuidados e longevidades.

Neste primeiro encontro também participa Vera Caovilla, especialista em Gerontologia Social, cofundadora da Associação Brasileira de Alzheimer (ABRAz) e da empresa 50 Mais Ativo. A moderação do debate será da fundadora e diretora da Longevida, Sandra Gomes. Com mais de 30 anos de atuação no segmento do envelhecimento, é especialista em Gerontologia pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) e mestre em Gestão em Políticas Públicas na Fundação Getúlio Vargas.

No dia 21 de junho, também às 18 horas, ocorrerá a live “Prevenção de quedas: desafios para profissionais e para pessoas idosas”. A convidada é a professora Mônica Perracini, referência no tema. Fisioterapeuta, ela é especialista em Gerontologia, professora do programa de Mestrado e Doutorado de Fisioterapia da Universidade Cidade de São Paulo (Unicid) e consultora da Organização Mundial da Saúde (OMS). A moderação será de Sandra Gomes, da Longevida, e de Katia Brito, jornalista, gerontologista e criadora do blog Nova Maturidade.

A programação de lives termina no dia 28 de junho com a participação especial da professora Maria Cecília Minayo (foto) que vai abordar o tema “Cuidado e Cuidadores – estudo situacional sobre idosos dependentes e seus cuidadores familiares”. A socióloga é mestre em Antropologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e doutora em Saúde Pública pela Fundação Oswaldo Cruz. As moderadoras do encontro serão a assistente social, professora e pesquisadora Daniela Reis, e Sandra Gomes.

Longevida

A Longevida Consultoria é uma empresa que atua na área do envelhecimento humano, promovendo o envelhecimento ativo por meio de projetos multidisciplinares, assim como atividades de capacitação e treinamento, nas áreas pública, privada e terceiro setor. Os trabalhos são realizados por uma equipe experiente, com habilidades no campo da longevidade. Acompanhe no Instagram e Facebook.

Katia Brito – Jornalista