Violência contra a pessoa idosa foi tema da primeira de três lives para marcar os 10 anos da Longevida

A violência contra a pessoa idosa nem sempre é visível. Existem formas menos aparentes que a agressão física violenta. São agressões emocionais e psicológicas, econômicas e as fraudes – e normalmente envolvem cuidadores ou familiares. Quem nunca ouviu falar do familiar que pede o cartão do aposentado para fazer uma compra, mas não paga a fatura? No fim, é o idoso quem fica com o prejuízo. Saindo do círculo mais próximo, há ainda o golpe do crédito consignado, que muitas vezes a pessoa nem sabe que tem o crédito ­– nem viu a cor do dinheiro –, só toma conhecimento quando fica inadimplente e com o “nome sujo” na praça.

Em sintonia com o Dia Mundial de Conscientização da Violência contra a Pessoa Idosa, o assunto foi o tema da live Combate à Violência contra a Pessoa Idosa: fraudes, relações intrafamiliares e delegacias, realizada em 14 de junho, pela Longevida Consultoria. Foi a primeira de três lives programadas para junho a fim de celebrar os 10 anos de atividades da empresa.  As outras duas apresentações foram: Prevenção de quedas – desafios para profissionais e para pessoas idosas, transmitida em 21 de junho, e Cuidado e Cuidadores – Estudo situacional sobre idosos dependentes e seus cuidadores familiares, no dia 28 de junho.

“Ao longo destes 10 anos, tive o prazer de implantar políticas públicas para a pessoa idosa, estar próxima também de gestores da iniciativa privada, mas principalmente favorecer espaços de escuta e dar espaços de voz para a pessoa idosa”, afirmou Sandra Regina Gomes, fundadorae diretora da Longevida, na apresentação do evento. “É o que nós precisamos em nosso País”, ressaltou, ao mencionar o aumento expressivo do número de pessoas com 60 anos ou mais no Brasil.

Compromisso e retrocesso. Sandra, que tem 34 anos de atuação na área, lembrou que o Dia Mundial de Conscientização da Violência contra a Pessoa Idosa, em 15 de junho, foi implantado em 2006 pela ONU e pela Rede Internacional de Prevenção à Violência contra a Pessoa Idosa. E citou o Artigo 4º do Estatuto do Idoso, Lei Federal 10.741: “Nenhum idoso será objeto de qualquer tipo de negligência, crueldade ou opressão, e todo atentado contra seus direitos, por ação ou omissão, será punido”. E acrescentou: “Todos nós que trabalhamos com a causa do envelhecimento, com a pessoa idosa e seus familiares, temos esse compromisso”.

Em seguida, manifestou indignação com “o retrocesso” estabelecido pela Classificação Internacional de Doenças (CID) 11, que considerar a velhice uma doença. “Temos de nos unir para falar sobre isso, velhice não é doença”, afirmou. Lembrou que a velhice é um processo natural, como infância ou adolescência. “Temos de respeitar a velhice, pois como diz o professor Alexandre Kalache, a alternativa é morrer antes.” A fundadora da Longevida sugeriu, então que em todas as postagens feitas pelos espectadores fosse usada a hashtag #velhicenãoédoença, assim mesmo, com acento e cedilha, como parte de uma campanha em nível mundial contra a CID 11.

O evento. Intermediado por Sandra, o evento teve as participações de Vera Caovilla, com larga experiência na área da gerontologia é cofundadora da Associação Brasileira de Alzheimer e da empresa 50 + Ativa; Cristiane Machado Pires Ramos, titular da Delegacia de Proteção à Pessoa Idosa de Porto Alegre e vice-presidente do Conselho Estadual do Idoso do Rio Grande do Sul, e de David de Aquino Filho, do Projeto Dinheiro e Longevidade.

Segundo Vera, existem violências muito leves cometidas contra pessoa idosa, não necessariamente de maneira voluntária. São aquelas, por exemplo, em que cuidadores, familiares ou não, usam força para tocar o paciente que apresentam algum grau de demência ou comprometimento cognitivo, como no caso daqueles com doença de Alzheimer.

“Quando se tem um cuidador em casa, é preciso dar uma olhadinha na pessoa idosa, porque a roupa acaba escondendo sinais (de violência) que deveriam ser vistos”, disse. O paciente pode ter sido beliscado ou recebeu um tapa na cara. “A pele do idoso fica mais sensível, fica muito marcado”, alerta.

A violência psicológica ou emocional, por sua vez, ocorre quando o familiar ou cuidador não liga para a pessoa idosa, desconversa, não dá atenção, finge que a pessoa não está mais existindo, o que acaba levando o idoso a um processo de depressão e afastamento. “Com isso, ele se retrai cada vez mais.”

A negligência com o paciente com certa demência, como não dar medicação ou não prover higiene e alimentação, também configura agressão. “É uma violência sim, porque o paciente não tem condição de reagir”, reforça. Mas como reconhecer quando uma pessoa idosa com esse quadro sofre violência?

Reconhecimento. Alguns sinais devem acender a luz amarela. O idoso evita olhar de frente para esse cuidador ou familiar, muda de comportamento quando essa pessoa sai de perto, percebe-se que não existe empatia entre o doente e o cuidador. O paciente fica tristonho. Para a pessoa com Alzheimer é ainda mais difícil, de acordo com Vera, porque muitas vezes ela não consegue entender o que está acontecendo, mas sente que há algo errado e não consegue colocar isso para fora. “No entanto, ela vai comunicar, de uma forma ou de outra. Pode não falar, pode mostrar pelo gesto, pela forma. Se está sendo gentil, se está conversando, se ela se exclui do convívio familiar”, observa Vera. 

Quem convive com paciente com Alzheimer sabe que é comum ele dizer que “aquela pessoa está me roubando”, ou “tal pessoa está me maltratando”, sem que isso esteja realmente ocorrendo. Ao mesmo tempo, alguns dos portadores de Alzheimer perdem a capacidade de falar, então começam a chorar ou gritar. Vizinhos, então, pensão que est[á ocorrendo violência física. Mas o que se pode fazer se ouvirmos isso constantemente? Para Vera, é preciso prestar atenção: “Mesmo que seja um aspecto da doença, pode ser que haja algum ponto de verdade”.

Há também dificuldades que a família passa, quando tem uma pessoa com Alzheimer e precisa tomar iniciativas como controle bancário ou econômico-financeiro. Vera citou o caso do pai de uma amiga, que tinha boas posses. “Ainda no início da doença, chegou ao banco e conseguiu comprar dois carros ao mesmo tempo — o gerente se aproveitou da situação. Ele conseguiu assinar direitinho a documentação de financiamento, só que ele já estava com Alzheimer, mas a família ainda não tinha conseguido o processo de curatela. A família tentou e não conseguiu desfazer o financiamento”, contou. “É violência financeira.”

A delegada Cristiane disse que, muitas vezes, a polícia fica de mãos amarradas, em razão de contrato malfeitos. “Fica difícil comprovar que antes a pessoa já estava com problemas.” E lembrou dos casos em que os idosos sequer sabem que estão fazendo empréstimos, como nos casos de oferta e concessão de empréstimos por telefone. Ela, no entanto, defendeu a curatela, que muitas vezes sofre resistência por parte de familiares, e disse que a medida protege sim o patrimônio do paciente.

Omissão. Em relação à omissão, disse que é difícil apurar. “Mas, de fato, deixar de prover as necessidades básicas do idoso, implica em abandono, previsto no Estatuto do Idoso, com pena de 3 anos, assim como submeter idoso a situação desumana ou degradante configura crime de maus tratos. Muitas vezes cometidos por pessoas muito próxima do idoso.”

No entanto, a delegada destaca que a proteção ao idoso é dever de todos. “Da família, do Estado e da sociedade. Só que a sociedade somos nós. Temos de assumir essa responsabilidade, pelo tio distante, pelo vizinho que grita e pede socorro: será que ele está com algum problema de senilidade? E aí temos de denunciar”, disse,

As denúncias podem ser feitas, inclusive anonimamente, pelo Disque 100, da Ouvidoria de Direitos Humanos. “Chegada a denúncia, a polícia desloca equipe até a casa do idoso pra conferir o que está acontecendo”, contou. E chamou a atenção para a importância de a polícia saber acolher a pessoa idosa. “É preciso uma escuta muito mais atenta, porque o idoso para denunciar alguém que é da família dele, precisa romper com um ciclo de silêncio muito difícil, para denunciar o filho ou o irmão. E ele não quer porque se sente responsável pela família, tem medo de não ser levado a sério.”

Segundo a delegada, com a pandemia, as denúncias de maus tratos, via Disque Denúncia, aumentaram 80% e chegaram a uma alta de 100% no final do ano passado. Ela no entanto, defendeu a curatela, muitas vezes rejeitada por familiares, como forma de defender o patrimônio do paciente. E lembrou que em casos urgentes de denúncia de agressão, o ideal é acionar o 190, da Polícia, pois a apuração da denúncia feita pelo Disque 100 não é tão rápida.

Dinheiro. Criador do projeto Dinheiro e Longevidade, para ajudar pessoas idosas a lidar com o dinheiro, o ex-bancário David Aquino Filho David Aquino Filho citou que 43% das pessoas com mais de 60 anos são provedores de suas famílias e que há no Brasil 75 milhões de inadimplentes, muitos idosos. “A violência (financeira ou bancária contra o idoso) vai bater na inadimplência, vai bater na própria família desse idoso que é provedor. E a Febraban informou que, no final do ano passado, houve aumento, até aquele momento, de 60% / 70% das fraudes bancárias. Deve ter aumentado mais ainda de lá para cá.”

David lembrou que sempre houve fraudes, como no autoatendimento na agência bancária ou no caso do consignado. Mas hoje a digitalização pode ser um problema ainda maior para a pessoa idosa, já que os banco agora também dificultam o atendimento presencial. “Atualmente, não é só banco, há fintechs, há vários agentes atuando, e a pessoa idosa confia muito nesse ambiente virtual, acha que realmente está conversando com uma pessoa”, disse, referindo-se a empresas que oferecem de empréstimos a “conselhos” a respeito de como aplicar dinheiro pelo meio digital ou telefônico.

Engenheiro social.  “Lembramos do golpista, do ladrão de carteira, que ficava olhando o descuido das pessoal. Mas agora é um engenheiro social, que estuda tecnologia, técnicas de como acessar informação das pessoas, e mais do que isso, estuda psicologia das pessoas, psicologia econômica, neurociência, como funciona o cérebro das pessoas.”

Todo o estudo do engenheiro social é no sentido de ter acesso às informações das pessoas, manipulando-as. Ele é agradável, disse David, consegue persuadir essa pessoa, envolve a pessoa. “É uma questão de tecnologia? É. Conseguem seu e-mail, no e-mail há um link malicioso com uma grande vantagem, mas ele vai em cima do comportamento das pessoas, como o idoso, porque tem aquela relação de confiança à antiga, ou estão vulneráveis, não conseguem discernir muitas coisas e facilmente libera suas informações.”

Por isso, argumentou a importância de a pessoa idosa ter precaução e prevenção. “Tem de aprender a acessar tecnologia, e entender essas coisas, o que não é muito fácil. Às vezes, entusiasmado no isolamento, sozinho, o idoso se expõe naturalmente na própria rede social, vai falando dele. E existe gente que vai juntando essas coisas. O engenheiro social trabalha com a curiosidade da pessoa, ele coloca um assunto atraente, e a pessoa cai.

David lembrou a grande facilidade ao crédito consignado. “Houve até aumento da base do consignado pra 40%”, ressaltou. E defendeu a necessidade de cartilhas e campanhas de orientação, além da importância da educação financeira do idoso. “O próprio idoso poderia ter educação social, educação financeira, para que nesse momento ele possa minimamente se defender”, reforçou.

Claudio Roberto Marques – Jornalista

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